Chega ao Brasil nova tradução de O Mestre e Margarida, romance escrito às escondidas pelo russo Mikhail Bulgakov entre 1928 e 1940, sob o opressivo clima de ameaça constante do totalitarismo stalinista. Na obra, uma trupe mui exótica - comandada pelo capiroto em pessoa - surge repentinamente na Moscou soviética, dando ensejo a um enredo fantasioso repleto de sátiras ao regime comunista - que principalmente por isso acabaria atuando tipicamente como censor (vetando mais de 10% do texto original) quando da primeira edição do título, versão em série lançada por revista cultural moscovita na segunda metade da década de 1960.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
sábado, 17 de outubro de 2009
Síndrome da China
Aberta na última terça-feira, a 61ª edição da Feira do Livro de Frankfurt - o mais tradicional e importante encontro do mercado livreiro no mundo - enfrenta duras críticas dentro e fora da Alemanha por ter cancelado a participação em seus simpósios e debates de todo e qualquer intelectual vetado pelo governo da China comunista, país homenageado no evento desse ano. Em resposta, organizações como o PEN Club alemão estão promovendo atividades paralelas com alguns dos escritores excluídos, garantindo que ao menos longe de casa (são exilados, em sua maioria) suas críticas ao regime chinês poderão ser livremente expressas e ouvidas por quem assim o desejar.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Ninguém entende, ninguém explica
Em qualquer democracia minimamente digna do nome, o Presidente da República(ou o primeiro-ministro) é sempre alvo privilegiado dos mais diversos tipos de humor. Com maiores ou menores graça, sensibilidade e audácia provocativa, humoristas vários se debruçam sobre o chefe do Executivo federal e satirizam trejeitos, maneirismos verbais, tropeções retóricos(ou não), gafes diplomáticas e tudo mais que possa ser matéria de piada, produzindo uma coleção de visões em torno de um mesmo personagem que vai do chiste episódico e superficial ao comentário político mais constante, explícito e pretensioso - e tudo isso em diferentes suportes e meios de comunicação, atingindo de variadas formas boa parte da sociedade nacional e, eventualmente, internacional. Com o Presidente Lula(já há piadas prontas aqui, aliás) não foi exceção, felizmente: vítima habitual dos próprios arroubos discursivos e de singular arrogância que no mais das vezes mal e mal se esconde por trás de uma sabedoria pretensamente inerente ao coletivo dos humildes, o ex-metalúrgico e militante profissional que ora nos preside já é objeto de todo um anedotário específico, melhor conhecido quanto mais o indivíduo lê ou ouve as pérolas que Sua Excelência profere. E é a esse anedotário que somamos, sob a rubrica tragicômica, a beleza que vem abaixo:
"Indagado se a decisão fortalece a OEA, o presidente afirmou que mais do que fortalecer a entidade, a revogação da suspensão ao país caribenho foi um ato em que 'prevaleceu o bom senso', porque 'ninguém mais conseguia explicar, ninguém mais conseguia entender'.De acordo com o presidente, o período em que Cuba foi 'o patinho feio' acabou, e isso 'foi bom para o mundo'".
Isso é o Presidente Lula, falando dessa feita sobre o fim da suspensão que impedia a ditadura comunista cubana de ingressar na OEA. Para nosso digníssimo molusco-em-chefe, ninguém entende(olha a arrogância aí: ninguém, absolutamente ninguém entende o que ele não entende, justifica o que ele considera injustificável), ninguém consegue explicar porque Cuba permanecia excluída da OEA. Na fala do presidente, a situação parece beirar o surreal: a exclusão da Ilha dos(updated) Drs.Castro não teria explicação alguma, seria - ainda que não explicitado - mera birra estadounidense, mais uma (dentre incontáveis birras!) desse país imperialista e malvado que, veja só, forçaria a ausência de um país irmão em fórum de deliberação política tão fundamental para os povos de nuestra America.
Mas faltou combinar com o acaso, esse reacionário: menos de 24 após a declaração do Ungido de Caetés, o governo cubano prendeu em espetacular operação marítima um grupo de proletários desesperados que tentavam escapar das revolucionárias conquistas da república popular do povo socialista, possivelmente instigados pela incessante propaganda contra-revolucionária do Império vizinho. As fotos são reveladoras: tão intelectual e emocionalmente subjugado pelas promessas do consumismo febril e antiecológico do Tio Sam maligno, um iludidíssimo servo da gleba caribenha chega a saltar alucinado em direção ao mar, mesmo após já estar absolutamente patente que eles foram, graças ao bom Marx, devidamente abalroados e inequivocamente capturados pelos diligentes tentáculos da pátria-mãe gentil.
Tragicômico à parte, ficam as perguntas: é realmente possível ignorar imagens dessas com cinismo, disfarçá-las com ideologia? É realmente preciso ser liberal - ou conservador ou, genericamente falando, em algum grau anti-esquerdista - para se chocar com a visão do homem cubano atirando-se enlouquecidamente ao mar, pensando sabe-se lá o que, temendo sabe-se lá que castigo? É realmente possível não perceber que essas pessoas não são - e a discussão sobre políticas imigratórias fica para depois - cidadãos sendo presos por país que quer impedi-los, por algum motivo, de entrar em seu território - mas sim indivíduos sendo capturados em alto-mar e levados à força, qual escravos mesmo, para um pedaço de terra que decidiram voluntariamente abandonar, arriscando sobre isopôr ridículo as próprias vidas? Podemos de fato acreditar que o Presidente da República Federativa do Brasil, limitações culturais à parte, não consiga sequer sentir aquilo que a média da humanidade sente, quase que imediatamente, quando contempla cena tão inacreditável, tão reveladora do drama e do horror da vida em um país-prisão?
Realmente: ninguém consegue explicar, ninguém consegue entender.
PS - Dificultando ao máximo a emigração de seus cidadãos, o governo cubano só faz acompanhar a política de países comunistas congêneres, de ontem e de hoje - antes um Muro de Berlim, atualmente uma polícia costeira a catar balseros que fraquejam e traem a revolução. Por trás de tanto zelo, muita realpolitik: a saída voluntária do socialismo em construção rumo à exploração capitalista seria (e de fato foi, mesmo que restrita a um mínimo por muros, cercas, fuzilamentos) um dano enorme para as ditaduras de partido único, constituindo uma legião de dissidentes no mais das vezes enormemente dispostos a falar o quanto sofriam sob o comunismo e usufruir das benesses do sistema econômico condenado pela História. Mas há algo mais ideológico por trás da coisa: como nos mostra o excelente texto A Tortura pela Esperança, do nobre(em mais de um sentido) contista francês Villiers de L'Isle-Adam, o ideólogo - no conto dele, um inquisidor católico; discutimos depois se catolicismo é ideologia - é antes de tudo alguém que está tão absolutamente certo de possuir uma verdade suprema ignorada pelos demais que entre suas atividades se propõe, talvez principalmente, a proteger todo e qualquer ente ainda ignorante da Revelação de seus próprios pecados, de suas próprias falsas escolhas, motivadas por uma visão equívoca do mundo. No conto, o inquisidor impede um infeliz e torturado prisioneiro de fugir da condenação divina que aguardava seu corpo, lamentando mesmo e amorosamente (sim, amorosamente) que o homem não tenha entendido e aceito, no fim da vida, o pecado que cometia ao não abdicar do judaísmo e a punição que mereceria por tão vil atitude. Na ilha-prisão de Cuba, não há porque duvidar que muita gente (esfriamento ideológico e doble moral de lado) realmente lamentou pelos homens terem se atirado ao mar e, amorosamente, se vê disposta a protegê-los de si mesmos e das mentiras em que acreditam.
"Indagado se a decisão fortalece a OEA, o presidente afirmou que mais do que fortalecer a entidade, a revogação da suspensão ao país caribenho foi um ato em que 'prevaleceu o bom senso', porque 'ninguém mais conseguia explicar, ninguém mais conseguia entender'.De acordo com o presidente, o período em que Cuba foi 'o patinho feio' acabou, e isso 'foi bom para o mundo'".
Isso é o Presidente Lula, falando dessa feita sobre o fim da suspensão que impedia a ditadura comunista cubana de ingressar na OEA. Para nosso digníssimo molusco-em-chefe, ninguém entende(olha a arrogância aí: ninguém, absolutamente ninguém entende o que ele não entende, justifica o que ele considera injustificável), ninguém consegue explicar porque Cuba permanecia excluída da OEA. Na fala do presidente, a situação parece beirar o surreal: a exclusão da Ilha dos(updated) Drs.Castro não teria explicação alguma, seria - ainda que não explicitado - mera birra estadounidense, mais uma (dentre incontáveis birras!) desse país imperialista e malvado que, veja só, forçaria a ausência de um país irmão em fórum de deliberação política tão fundamental para os povos de nuestra America.
Mas faltou combinar com o acaso, esse reacionário: menos de 24 após a declaração do Ungido de Caetés, o governo cubano prendeu em espetacular operação marítima um grupo de proletários desesperados que tentavam escapar das revolucionárias conquistas da república popular do povo socialista, possivelmente instigados pela incessante propaganda contra-revolucionária do Império vizinho. As fotos são reveladoras: tão intelectual e emocionalmente subjugado pelas promessas do consumismo febril e antiecológico do Tio Sam maligno, um iludidíssimo servo da gleba caribenha chega a saltar alucinado em direção ao mar, mesmo após já estar absolutamente patente que eles foram, graças ao bom Marx, devidamente abalroados e inequivocamente capturados pelos diligentes tentáculos da pátria-mãe gentil.
Tragicômico à parte, ficam as perguntas: é realmente possível ignorar imagens dessas com cinismo, disfarçá-las com ideologia? É realmente preciso ser liberal - ou conservador ou, genericamente falando, em algum grau anti-esquerdista - para se chocar com a visão do homem cubano atirando-se enlouquecidamente ao mar, pensando sabe-se lá o que, temendo sabe-se lá que castigo? É realmente possível não perceber que essas pessoas não são - e a discussão sobre políticas imigratórias fica para depois - cidadãos sendo presos por país que quer impedi-los, por algum motivo, de entrar em seu território - mas sim indivíduos sendo capturados em alto-mar e levados à força, qual escravos mesmo, para um pedaço de terra que decidiram voluntariamente abandonar, arriscando sobre isopôr ridículo as próprias vidas? Podemos de fato acreditar que o Presidente da República Federativa do Brasil, limitações culturais à parte, não consiga sequer sentir aquilo que a média da humanidade sente, quase que imediatamente, quando contempla cena tão inacreditável, tão reveladora do drama e do horror da vida em um país-prisão?
Realmente: ninguém consegue explicar, ninguém consegue entender.
PS - Dificultando ao máximo a emigração de seus cidadãos, o governo cubano só faz acompanhar a política de países comunistas congêneres, de ontem e de hoje - antes um Muro de Berlim, atualmente uma polícia costeira a catar balseros que fraquejam e traem a revolução. Por trás de tanto zelo, muita realpolitik: a saída voluntária do socialismo em construção rumo à exploração capitalista seria (e de fato foi, mesmo que restrita a um mínimo por muros, cercas, fuzilamentos) um dano enorme para as ditaduras de partido único, constituindo uma legião de dissidentes no mais das vezes enormemente dispostos a falar o quanto sofriam sob o comunismo e usufruir das benesses do sistema econômico condenado pela História. Mas há algo mais ideológico por trás da coisa: como nos mostra o excelente texto A Tortura pela Esperança, do nobre(em mais de um sentido) contista francês Villiers de L'Isle-Adam, o ideólogo - no conto dele, um inquisidor católico; discutimos depois se catolicismo é ideologia - é antes de tudo alguém que está tão absolutamente certo de possuir uma verdade suprema ignorada pelos demais que entre suas atividades se propõe, talvez principalmente, a proteger todo e qualquer ente ainda ignorante da Revelação de seus próprios pecados, de suas próprias falsas escolhas, motivadas por uma visão equívoca do mundo. No conto, o inquisidor impede um infeliz e torturado prisioneiro de fugir da condenação divina que aguardava seu corpo, lamentando mesmo e amorosamente (sim, amorosamente) que o homem não tenha entendido e aceito, no fim da vida, o pecado que cometia ao não abdicar do judaísmo e a punição que mereceria por tão vil atitude. Na ilha-prisão de Cuba, não há porque duvidar que muita gente (esfriamento ideológico e doble moral de lado) realmente lamentou pelos homens terem se atirado ao mar e, amorosamente, se vê disposta a protegê-los de si mesmos e das mentiras em que acreditam.
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Rock against communism - and no fascist too
Em sua mais recente peça, o dramaturgo conservador(ou libertário?) Tom Stoppard - já mencionado nesse blog - faz um retrato da Tchecoslováquia comunista a partir de dois jovens dissidentes, um deles amante da então reprimida cena rock local. Ler a resenha de Michael Weiss sobre a peça é especialmente oportuno nos dias que correm, quando o roqueiro cubano Gorki Avila mostra mais uma vez como a música pode ser incômoda para um regime autoritário.
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quarta-feira, 9 de julho de 2008
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